Fakebook

Atualizado: Jun 23




Alessandra Moitas

Psicologia e Psicanálise, Escuta clínica, Liderança, Mediação de conflitos, Comunicação interpessoal, Gestão de pessoas



"A internet e o Facebook nos tranquilizam e nos dão a sensação de proteção e abrigo, afastando o medo inconsciente de sermos abandonados. Na verdade, muitas vezes você está cercado de pessoas tão solitárias quanto você." Zigmunt Bauman

Não há dúvidas de que o advento da modernidade nos trouxe inúmeros avanços, a humanidade assistiu estarrecida, ao cumprimento das profecias que anunciaram um mundo onde a tecnologia chegaria ao seu ápice, nos oferecendo possibilidades inimagináveis.


Contudo, o que não se esperava, é que a tal modernidade, fosse capaz de procriar trazendo à luz um rebento com ares de messias, que foi batizado com o nome de 'Pós Modernidade', e em pouco tempo, tornou-se uma espécie de deus, capaz de criar vida virtual, produzindo outras subjetividades e portanto, outras formas de relação.

O sociólogo e filósofo polonês, Zigmunt Bauman, é sem dúvida, o maior expoente, quando o assunto é a pós modernidade, autor dos livros Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, Modernidade Líquida e O Mal-estar da Pós Modernidade, Medo Líquido, Bauman apresenta um diagnóstico incontestável da sociedade atual.

Vivemos em um mundo onde a tônica é a pressa, tudo deve estar pronto no próximo minuto, tudo é para agora, o acesso às informações é quase imediato, não há tempo para nada que tome tempo, portanto, não há espaço para a construção de relações duradouras. Uma de suas frases mais célebres, traz a metáfora do relacionamento humano, como um líquido que escorregue pelo vão dos dedos, sem consistência, sem peso, sem poder ser vivido em sua profundidade.


Segundo Bauman, o sujeito pós moderno, é marcado por um sentimento de insegurança, já que todas as certezas e valores que sustentavam a sociedade, ruíram, como um velho edifício lançado às traças. Se tudo pode mudar num piscar de olhos, não há pontos de referência que balizem os comportamentos. As bordas, que delimitavam claramente a vida em sociedade, estão borradas ou imperceptíveis. A ilusão das garantias foi perdida para sempre. Esse vazio, deixado pela ausência de parâmetros, é vivido pelo homem pós moderno como angústia, e foi propriamente como uma forma de se defender dessa angústia existencial, que esse novo homem, produziu novas formas de estar no mundo e também, novos sintomas.


A solidão por trás da porta fechada do quarto, cujo o único som, é o das teclas do computador, pode parecer uma condição menos arriscada, que compartilhar o terreno doméstico comum.


A Psicanálise, sempre em sintonia com o seu tempo, há muito tem se debruçado sobre essa transformação social, na tentativa de compreender quem é esse novo individuo, esculpido e lapidado pela era pós moderna, e como as formas de relacionamento interpessoal, foram modificadas


Quando fui desafiada a pensar pela primeira vez nessa questão, o pioneiro Orkut acabara de morrer, para dar lugar ao seu substituto absoluto, o Facebook. Apesar da resistência inicial às redes sociais, como aluna de Psicanálise, era impossível ficar alheia àquilo que já se configurava como um fenômeno social; a velocidade com que a tecnologia avançava, era prenúncio de que estávamos diante de uma avalanche que não seria controlada.

As leituras teóricas me ajudaram a compreender os aspectos mais profundos da questão, mas a ideia de vivenciar o poder que as redes sociais podiam exercer sobre a personalidade e o comportamento dos indivíduos de forma mais intensa, fez nascer um projeto de pesquisa, uma 'pesquisa de campo', experimento comum na minha área, mas nesse caso, e de forma pioneira, o campo seria virtual.


À princípio, a ideia era observar como as pessoas usavam aquela nova rede social, buscando elementos comuns, que pudessem dar conta de um certo perfil, mas para a minha surpresa, havia uma diversidade significativa na forma como os usuários se relacionavam virtualmente, e por isso, não era possível estabelecer um único perfil, eu estava diante de um mosaico multideterminado.


Porém à medida em que o Facebook ganhava força no cenário social, um elemento comum emergiu, elemento que parecia estar presente no comportamento de quase todos os usuários, tratava-se da super valorização da imagem, e consequentemente uma super exposição da mesma, não apenas da auto-imagem, as chamadas selfies, mas de qualquer coisa que fizesse parte da rotina diária. Rapidamente, uma enxurrada de fotos de paisagem, pratos de comida, viagens, animais, invadiu as timelines.

Eu estava convencida de que havia encontrado algo muito poderoso, que era capaz de produzir novas formas de subjetividade, e portanto, formas totalmente inusitadas de relacionamento. Estávamos diante de um divisor de águas, e em pouco tempo, não éramos mais capazes de fazer nada, sem o ritual do compartilhamento.


A pesquisa que já se configurava como algo extremamente relevante, continuou me desafiando, isso porque a experiência *facebookiana bateu na porta da minha clínica, como demanda terapêutica; os pacientes traziam angústias relacionadas à quantidade de "likes" que recebiam em uma determinada foto, falavam de sentimentos de raiva e inveja, que estavam relacionados ao fato de desejarem aquele algo perfeito que aparecia na foto da viagem ao Caribe do colega de trabalho, ou do ciúme e da insegurança, gerados por aquela foto da melhor amiga, abraçada com outra amiga... Um sofrimento psíquico real, vivido em um mundo virtual.


A imagem ganhava um lugar de poder inacreditável, e por mais que eu pensasse no "Fetiche da mercadoria" ou no "Mal estar na civilização", não conseguia me livrar da ideia de que aquele fenômeno pós moderno, apesar de seu prenúncio, extrapolava todos os limites do razoável, e se não deixasse Marx e Freud surpresos, pelo menos os instigaria a um estudo acurado do tema.


Em poucos anos, passamos a enxergar o mundo através das lentes do Facebook, a nos relacionar com perfis virtuais, e o pior, passamos a atribuir valor de verdade à qualquer informação veiculada ali. Os fatos estavam sendo substituídos pela opinião pessoal, que por sua vez, estava baseada em um recorte da realidade, que podia ser uma foto, uma notícia, ou até mesmo, uma frase fora de seu contexto original.


O desejo de aprofundar essa pesquisa se concretizou, na escolha de um aspecto que me causava particular interesse, eu queria provar que o poder daquele fenômeno virtual fazia com que a maioria das pessoas comprassem qualquer coisa, desde que a apresentação imagética fosse sedutora, e para isso, me ocorreu uma ideia tão estranha quanto ousada: a criação de um personagem, processo que se deu, à partir da minha própria experiência como usuária do Facebook, daquilo que eu já havia observado como características do uso dessa rede social. É de suma importância esclarecer que em momento nenhum, a ideia era usar esse "perfil personagem", para interagir com pessoas desconhecidas, o que além de configurar uma infração virtual, é contra os meus princípios éticos, portanto, minha pesquisa ficou circunscrita ao meu grupo de amigos, e a forma de interação estava muito bem delimitada, para que não houvesse nenhum dano emocional e para que ao final do período de observação, eu obtivesse a permissão para o uso dos dados.

Para que eu obtivesse dados significativos, o personagem precisava ser interessante, já que a ideia, era adicioná-lo como amigo e observar a teia de relações que seriam estabelecidas à partir disso. O perfil criado e adicionado como amigo, foi batizado por "Pedro", combinei uma imagem atraente, com uma página que levantasse alguma suspeita, para analisar o ponto central desse estudo: o quanto as pessoas acreditavam apenas naquilo que viam no Facebook, sem averiguar a veracidade das fontes. O resultado foi surpreendente!


Pedro era um bom moço, extremamente sedutor e politicamente correto, que interagia nos meus posts, sempre concordando com as minhas opiniões e me bajulando, como um Dom Juan, não demorou muito que "ele" conseguisse conquistar algumas amigas minhas, elas viraram fã "daquele homem tão carismático", algumas delas, inclusive, entraram na página "dele", e mesmo tratando-se de uma "página estranha, sem muitas fotos ou conexões", elas continuavam apaixonadas por "ele", como se um efeito hipnótico, as houvesse entorpecido. Outras, chegaram a mandar solicitação de amizade para "ele", e não era raro me perguntarem porquê eu não namorava com "aquele homem tão maravilhoso", mas quanto eu perguntava porquê, eram incapazes de me dar um motivo plausível; o discurso que eu fazia, através do "Pedro", era tão atraente, que foi tomado como verdade, evidenciando a carência afetiva, que é relatada por algumas mulheres, e que em casos mais graves, tornam-se vítimas de alguém que esteja mal intencionado.


Com os amigos, a pesquisa revelou dados muito diferentes, a maioria deles, apresentou um incômodo com as investidas de "Pedro" relacionadas a mim, acharam "que era impossível um homem ser tão perfeito assim" , e à partir disso, acessaram a página "dele" e imediatamente, desconfiaram da falta de informações básicas que qualquer página do Facebook deveria ter, estavam convencidos de que se tratava de um "perfil falso", mas apesar de se considerarem meus amigos na "vida real", eles não me perguntaram nada sobre aquele homem misterioso que enchia a minha linha do tempo com cantadas baratas, ao invés disso, preferiram criar teorias, cujo conteúdo era constituído por essas construções de pensamento: "eu havia criado aquele personagem por estar carente", "queria chamar atenção", "queria mostrar que sou desejada por alguém, já que estava solteira", "tinha dupla personalidade", "me sentia solitária e ele seria uma espécie de relacionamento virtual", para minha surpresa, todas as ideias continham um teor extremamente machista, que colocava a mulher que não tem um companheiro, numa posição de "incompletude". Além do preconceito escancarado, eles, como as minhas amigas, preferiram acreditar naquilo que as aparências diziam, a me confrontar para descobrir a verdade, preferiram acreditar nas próprias mentiras que a sua mente produziu, a estabelecer um diálogo verdadeiro comigo.

Eu chegara à conclusão de minha pesquisa: a pós modernidade instaurou a era da fabulação, terreno fértil, onde tudo pode ser plantado, sem nenhum compromisso com a verdade dos fatos.


Quando me debrucei sobre essas questões anos atrás, nem imaginava que observei, seria tão relevante para os dias de hoje, onde vemos o crescimento da chamada indústria das fake news, verdadeiras organizações que criam realidades falsas aceitas e propagadas como verdade. A pós modernidade nos trouxe inúmeras possibilidades, mas seu efeito colateral foi devastador, estamos diante de um curioso paradoxo: vivemos o auge dos avanços tecnológicos, mas em termos de comportamento humano, regredimos ao medieval, à idade das trevas, como foi conhecido o período pré renascimento, onde os dados científicos, que podem ser comprovados, foram substituídos por crenças e misticismo; a atração pela imagem com ares de perfeição, representada por uma foto, ou por uma notícia, parece nos hipnotizar, e tem o mesmo efeito de uma dependência química.


Meu projeto de pesquisa foi encerrado com uma pergunta: o que o futuro nos reserva? Uma nova rede social, que fará o Facebook se tornar obsoleto, produzindo mais realidades fictícias ou encontraremos enfim, uma forma de retornar? Há como retornar? Difícil dizer, resta-me apenas um pedido, que a realidade humana seja resgatada em toda a sua plenitude


"Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar." O futuro de uma ilusão - Sigmund Freud

Observações pertinentes:


* A pesquisa durou seis anos.

* Todos as frases em aspas, são resultado da minha conversa com os amigos que interagiram de alguma forma com o perfil personagem. Todos eles concordaram com a utilização dos dados para a conclusão dessa pesquisa.

* O perfil utilizado como campo virtual, já foi desativado e não será reativado, mesmo que essa pesquisa gere outras possibilidades de aprofundamento.

Referências Teóricas


*Zigmunt Balman - "Mal estar da pós modernidade"


*Sigmund Freud - "O futuro de uma ilusão"

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